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Unicamp adquire o acervo
do fotógrafo
Aristides da Silva, o
V-8, para garantir a
conservação
de relíquias de Campinas
As imagens do trabalho escravo
no final do século XIX, que contam a história visual da instalação
de trilhos para o tráfego dos bondes de tração animal,
se perderam no tempo. A emulsão fotográfica desses instantâneos,
nas chapas emolduradas de vidro, não suportou a implacável
ação da umidade corrosiva. De um conjunto das três
caixas, encontradas numa velha casa do bairro do Cambuí, em Campinas,
nada pôde ser aproveitado. O autor morrera sem permitir que ninguém
colocasse as mãos nos originais de sua obra. “Tudo grudado nas bordas.
Você via, então
você chorava”, lamenta o colecionador. Em outra residência,
entretanto, ele salvou do lixo mais de 1.800 negativos, dos tempos de Francisco
Glicério: o modo de vida da população, a arquitetura,
a luz, o movimento...
Nas lembranças de
Aristides Pedro da Silva, que ficou famoso na cidade como o V-8, essas
imagens estão vivas. Desde o tempo em que garimpava tesouros nos
porões de casarões aristocráticos campineiros. Depósitos
onde se jogava trastes de pouco valor, esquecidos nos recônditos
da memória, numa época em que as pessoas muitas vezes nem
sabiam das relíquias perdidas entre as velharias e que ele recuperou
para a posteridade. “Ih, lá em casa tem um monte de vidro!”. Bastava
a deixa de algum conhecido para que ele fosse recolher os objetos que formaram
um dos acervos mais importantes da história do desenvolvimento de
Campinas. O arquivo cobre o final do século 19 e quase toda a metade
do século 20.
Este patrimônio iconográfico,
transformado em obra de referência para historiadores e pesquisadores,
está agora sob a guarda da Unicamp. O conjunto, somando mais de
cinco mil negativos e ampliações, até então
sob a custódia do Museu da Imagem e do Som (MIS), foi incorporado
ao arquivo imagético do Centro de Memória da Unicamp (CMU).
O fotógrafo tinha autorizado, em 2001, a transferência do
acervo de sua residência para o MIS, atendendo a um pedido do prefeito
Antonio da Costa Santos, assassinado em setembro.
No início de dezembro,
o reitor da Unicamp Hermano Tavares assinou portaria determinando a liberação
de R$ 42,2 mil para aquisição das fotografias recolhidas
e produzidas por V-8, que o CMU vinha negociando havia alguns anos. As
fotos a partir de agora serão diagnosticadas, restauradas e organizadas
pela equipe técnica do Centro, em conjunto com técnicos do
MIS, que serão treinados para também participar do trabalho
de recuperação e catalogação. Cópias
digitais das imagens estarão disponíveis para pesquisas acadêmicas
e o acesso será livre para estudantes das redes de ensino de primeiro
e segundo graus.
Automóveis Ford, em
meio ao movimento da Rua Barão de Jaguara em Campinas, no final
da década de 30. Esta imagem exposta numa vitrine do estúdio
de V-8, na Rua Treze de Maio, despertou o interesse dos transeuntes. E
este prazer em exibir suas fotos tornou Aristides Silva uma referência
como colecionador de preciosidades. As imagens correram o mundo e ainda
hoje são parte de exposições em paredes de restaurantes,
galerias, na mídia e em publicações da história
regional.
“Se lixeiro entendesse um
pouco de arte, ficava rico. Até libra esterlina foi para o lixo,
mas ele não conhecia. Era uma coisa comum. A turma falava: ‘Leva
lá para o V-8, que é lixeiro”, relembra Aristides. Grandes
momentos do século 20, flashes da memória, estão guardadas
no coração do museólogo.
Aristides Silva, 80 anos
de idade completados em outubro passado, é um homem de vida simples
e dedicado ao amor por sua cidade. Fotógrafo e pesquisador sensível,
reconhecido como profissional de grande importância para Campinas,
agora tem seu legado preservado, não apenas para seus contemporâneos,
mas para as futuras gerações que ainda serão alimentadas
por esta rica fonte de luz, lirismo e realidade.
Caminhos da arte
V-8 descobriu os caminhos
da arte em sua infância de origem humilde, ao contemplar os verdes
campos das fazendas de café no Distrito de Sousas, ou nos solares
das fazendas em Valinhos (SP). Seu amigo fotógrafo Mário
de Oliveira o orientou no início da carreira.
Quando começou a registrar
jogos de futebol, em 1947, ele usava uma máquina caixão Agfa.
Os rudimentos da cultura européia o ajudaram na construção
do olhar fotográfico, quando carregava telas e caixas de pincéis
e tintas para turistas franceses, hóspedes do Hotel Fonte Sônia
em Valinhos. Autodidata também na pintura.
O olhar sensível,
a luz na medida exata. Esta obsessão de Aristides Silva pela luminosidade
ideal fez com permanecesse horas em frente ao Teatro Municipal para fotografar
a derrubada do monumento.
A paixão pela arte
era nítida até em fotos de casamentos. Eventos históricos,
a desconstrução de prédios antigos, o fanatismo pelo
Guarani, registros da cidade que não existe mais. No acervo de múltiplos
autores, constituído principalmente por doações, estão
congeladas para sempre as mudanças arquitetônicas de Campinas,
seu cotidiano. O cortejo fúnebre do maestro Carlos Gomes, a demolição
do Teatro Municipal e da Igreja do Rosário, a neve cobrindo a Praça
Bento Quirino em 1927, a assepsia do Mercado Municipal na virada do século
19. A despedida dos bondes e a retirada dos trilhos urbanos, a Fazenda
Barreira em 1923, a Banda do Boi fundada em 1905, a Festa dos Padeiros
em 1909, a Rua Barão de Jaguara em 1930...
“O apelido V-8 era
de meu irmão, que foi pra Santos. Me chamavam: ‘é irmão
do V-8, irmão do V-8!’. Quando a gente não gosta é
que o apelido pega”
“Comprei uma máquina
pequena, uma Agfa ‘caixão’, aquela 6 por 9. Comecei a fotografar
nos campos, comecei devagar. Não sabia pôr um filme, que era
chapa de vidro. Foi indo, me aperfeiçoei”
“Era uma perua
de São Paulo que comprava, pegava as chapas de vidro pra limpar,
pôr de moldura. Deu banho em mais de cinco mil negativos. Venderam
como vidro. Eu peguei muitas coisas, vinha guardando. Então, todo
mundo dizia: ‘Leva lá que o V-8 que é lixeiro, tá
colecionando’. Peguei muita coisa no lixo” Fonte:
Jornal da Unicamp/Fevereiro de 2002 |