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Resgate
recupera seu espaço entre as revistas acadêmicas de cultura
A presente edição
de Resgate (128 páginas, R$ 8,00) é a materialização
do esforço do Comitê Editorial da revista que, em busca da
atualização, produziu três números em um espaço
de sete meses. “É um desafio produzir uma revista acessível
ao público não-acadêmico, sem, contudo, abrir mão
do conteúdo denso e da boa qualidade editorial que requer uma publicação
produzida no âmbito da Universidade. Encarar este desafio tem sido
o nosso objetivo”, afirma a diretora do Centro de Memória-Unicamp,
Olga von Simson.
Segundo ela, Resgate, desde a sua
primeira edição, em 1990, busca ultrapassar a barreira da
incomunicabilidade com o público leigo, fenômeno constante
em revistas científicas nas diferentes áreas do conhecimento.
Resgate pretende cobrir o espaço
que vai do jornal à produção da Academia, mediando
a interlocução desses dois níveis, com o propósito
de tornar mais palatável ao leitor o que se produz na Universidade.
“Nossa proposta é, portanto, abrir espaço para o debate que
não se cadencie apenas pela pulsão acadêmica e pela
linguagem eminentemente técnica”, afirma o jornalista Amarildo Carnicel,
editor da publicação. Ele explica que a revista visa também
atingir a sociedade mais ampla por meio de um diálogo com os diferentes
segmentos da comunidade acadêmica e tornar-se canal efetivo para
a veiculação das criações nas áreas
artísticas, literárias e de humanidades em geral.
A edição –
Os artigos reunidos nesta 11a. edição compõem o dossiê
“Um olhar sobre a contemporaneidade”. Sob essa ótica, reúne
trabalhos que veiculam criações artísticas, literárias
e de humanidades em geral. “Sugerem e discutem modos de olhar e de pensar
o agora dentro de uma perspectiva teórica que, em alguns momentos,
se vale também do passado para melhor compreensão do presente”,
afirma o editor. “A propósito, se o momento em que vivemos pode
ser chamado de “Era da imagem”, nada mais oportuno que o tema “imagem”
– em seus diferentes suportes – para uma discussão nesta edição”,
avalia.
A professora da Umesp, Sandra Reimão,
faz uma análise de livros publicados a partir de produções
feitas originalmente para a TV. No artigo “Quando a telenovela se torna
livro”, Sandra traça o perfil gráfico e editorial destas
publicações e procura delinear questões a respeito
de seu significado e sentido cultural. Em outro artigo, a análise
deixa a telinha da TV e migra para o telão, onde a professora da
Unicamp, Cristina Bruzzo, faz uma viagem ao século XIX quando, em
diferentes lugares e sem contato entre si, vários homens inventaram
engenhocas que desafiavam as imagens estáticas. Em “A invenção
do espectador e do cinema”, Cristina procura compreender o mundo moderno
a partir de uma reflexão sobre o significado do cinema. Vem também
da sala escura a rica e instigante figura de Mazzaropi, personagem que
alimenta duas seções desta edição. Na seção
“Entrevista”, o sociólogo Glauco Barsalini, em longa conversa com
o jornalista Thiago P. Ribeiro sobre o livro Mazzaropi - o Jeca do Brasil,
fala da importância do ator e produtor para a cultura nacional. A
mesma obra é o mote da seção “Resenha” que apresenta
as impressões do jornalista e também sociólogo Wagner
J. Geribello sobre o trabalho de Barsalini. O resenhista traz à
baila a questão sempre presente em debates sobre o papel social
e político de Mazzaropi.
Engajamento popular versus alienação
popularesca –em que extremos se enquadra o ator? “A questão não
é fechada, mas sim apresentada para uma reflexão mais cautelosa
aos que querem ultrapassar os limites do espectador comum”, explica o editor.
A imagem, agora em sua forma estática,
é objeto de outros dois trabalhos. O jornalista e doutorando em
Educação, Amarildo Carnicel, apresenta o ensaio “Fotografia
e inquietação: uma leitura da imagem a partir da relação
fotógrafo-fotografado”. Neste trabalho, o autor mostra que as imagens
não são exatamente o que se vê (as fotos são
tão polissêmicas quanto as palavras) e se vale da condição
de fotógrafo e pesquisador para compreender o comportamento do fotografado
diante da ação fulminante da objetiva da câmara fotográfica.
Na seção “Combates & Rituais”, espaço reservado
a trabalhos inéditos extraídos de pesquisas de mestrado e
doutorado, o professor da PUC-Campinas, Nelson Chinalia, analisa o ressignificado
de fotografia publicada na Folha de S.Paulo. Em “Fotojornalismo, a manipulação
visual da notícia”, afirma que o fotógrafo, diante da nova
configuração dos produtos jornalísticos impressos,
ganha nova dimensão, na qual o mais importante não é
mais o fato, mas sua representação, sua plasticidade, muitas
vezes em detrimento da informação. A socióloga Marli
Marcondes, em “História e informática, o uso da hipermídia
no resgate da Estrada de Ferro Funilense (1899-1924)”, constrói
um hipertexto sobre o tema e fornece subsídios para que o usuário
possa compor sua própria história. Imagens das estações,
biografias e documentos sobre a ferrovia integram o mapa do CD-ROM produzido
pela pesquisadora.
O doutor em Educação,
Jaime Lisandro Pacheco, discorre sobre “Educação, traballho
e envelhecimento: estudo das histórias de vida de trabalhadores
assalariados e suas relações com a escola, com o trabalho
e com os possíveis sintomas depressivos após aposentadoria”.
Neste estudo, ele faz uma leitura da relação entre educação,
trabalho e envelhecimento.
Ainda dentro de uma visão
contemporânea, três pesquisadores apresentam suas contribuições
nas áreas de trabalho e política, educação
ambiental e política de controle no comércio de autoria.
A mestre em Comunicação, Maria Inês Accioly, em “Comércio
de autoria: um sistema da cultura pós-moderna”, localiza, entre
outras análises, os agenciamentos que estimulam a prática
do ghost writing. A professora da Esalq-USP, Maria de Lourdes Spazziani,
em “Educação ambiental para sociedades sustentáveis
e o entendimento sobre a natureza humana”, através de concepções
de Educação Ambiental expressas por educadores, investiga
o entendimento sobre as relações entre cultura e natureza.
A mestre em Educação, Kimi Tomizaki, em “Lembranças
de São Bernardo: a memória e a constituição
das condutas de jovens trabalhadores do interior do Estado de São
Paulo”, discute as contradições do processo de rememoração,
o caráter político da memória e a influência
sobre as formas de conduta dos sujeitos envolvidos.
Mas Resgate não abriga apenas
artigos, ensaios e resenhas. Contos, poesias e crônicas compõem
a seção “Empório Literário” que, nesta edição,
traz o poema A cidade e os livros, em que o lingüista e poeta Carlos
Vogt mostra sua paixão por São Paulo durante um passeio,
em diferentes épocas, pela “Paulicéia Desvairada”.
Como se observa neste número,
Resgate procura preservar seu projeto original, conforme disse um dia seu
idealizador, o historiador José Roberto do Amaral Lapa: “Não
é necessário renunciar ao nicho acadêmico para chegar
a leitores que não têm familiaridade com monografias, dissertações
e teses. É possível preencher, de forma harmoniosa, essa
lacuna situada entre o rigor da investigação acadêmica
e a leveza da informação cultural”. Pelo menos, esta é
a proposta da revista que recupera seu espaço entre as revistas
acadêmicas de cultura. |